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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

o mito da caverna

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a ilusão projetada pelas sombras
O mito da caverna, também chamada de Alegoria da caverna, é uma passagem de um escrito do filósofo Platão, e encontra-se na obra intitulada A República (livro VII).
Trata-se da exemplificação de como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona através da luz da verdade.
O mito da caverna de Platão

Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para a frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semi-obscuridade, enxergar o que se passa no interior.
A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os prisioneiros - no exterior, portanto - há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas.
Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.
Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda a luminosidade possível é a que reina na caverna.
Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria.
Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol, e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não vira senão sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade. Libertado e conhecedor do mundo, o priosioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los.
Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá-lo.

Análise

  • O que é a caverna? O mundo de aparências em que vivemos.
  • Que são as sombras projetadas no fundo? As coisas que percebemos.
  • Que são os grilhões e as correntes? Nossos preconceitos e opiniões, nossa crença de que o que estamos percebendo é a realidade.
  • Quem é o prisioneiro que se liberta e sai da caverna? O filósofo.
  • O que é a luz do Sol? A luz da verdade.
  • O que é o mundo iluminado pelo sol da verdade? A realidade.
  • Qual o instrumento que liberta o prisioneiro rebelde e com o qual ele deseja libertar os outros prisioneiros? A filosofia.
A metáfora de Platão define a realidade como sendo composta de dois domínios, os quais são o domínio das coisas sensíveis e o domínio das idéias. Para ele a maioria da humanidade vive na infeliz condição da ignorância, ou seja, vive no mundo ilusório das coisas sensíveis as quais são mutáveis, não são universais e nem necessárias e, por isso, não são objetos de conhecimento. Este mundo das idéias, percebido pela razão, está acima do sensível (dominado pela subjetividade) que só existe na medida em que participa do primeiro, sendo apenas sombra dele. Mais tarde Aristóteles criticaria Platão dizendo que ele não havia questionado o que é participar.
O filósofo é aquele que, através de um processo dialético, se liberta das correntes, saindo assim da ignorância para a opinião e, depois, para o conhecimento. Estabelece portanto, etapas bem definidas e dolorosas.
É importante ressaltar que o autor faz uma analogia entre aptidão para ver e aptidão para conhecer, exercício da visão e exercício da razão e entre faculdade da visão e faculdade da razão. Há aí, também, uma relação entre o mundo visível e o mundo inteligível, sendo como já foi dito, o primeiro uma sombra do segundo. Feito isto, pode-se afirmar que, durante a descrição do mito, as fases pelas quais a visão do sujeito passa são as fases pelas quais passa a razão.
A primeira etapa é chegar à opinião (doxa), ilustrada pela subida do fundo da caverna até às imagens exteriores, tentando superar a inércia da ignorância (agnosis). O sujeito é ofuscado pela luz da fogueira sendo esta (a luz) a representação da verdade a qual lhe causa dor aos olhos que representam o órgão do conhecimento. Neste primeiro instante, ele não consegue distinguir muito bem o que está a ver mas com persistência e olhar investigativo contempla as formas bem definidas dos objetos que geram as sombras do fundo da caverna. Então ele atinge o conhecimento (episteme). Mas a investigação não acaba por aí. A busca pelas idéias gerais, unas e imutáveis é ilustrada pela saída até à luz do Sol que simboliza o bem (alegoria do Sol) que está no topo da hierarquia das idéias universais das quais também fazem parte o belo e a justiça.
Estas etapas são representadas também por outra metáfora em que o sujeito olha primeiro para a sombra dos objetos, depois para a imagem deles refletida na água e, por último, para os próprios. Note-se aí, a passagem da ignorância para a opinião e depois para o conhecimento. Então ele passa a ser capaz de contemplar o que há no céu e o próprio céu à noite representando a contemplação das idéias imutáveis. Finalmente ele torna-se apto a olhar para o Sol e o seu brilho de dia ilustrando o descobrimento da idéia do bem.
Então Platão pergunta o que aconteceria a esse homem se ele descesse novamente à caverna e tentasse contar o que havia descoberto. Sua vista demoraria a acostumar-se às trevas novamente. Certamente ele seria ridicularizado, hostilizado e até morto pelos demais. Esta descida à caverna representa o dever do filósofo para com o Estado de compartilhar com os outros cidadãos o conhecimento a que chegou com o apoio deste Estado. Por mais que seja dolorosa esta atitude, para o homem sábio, de conviver com os demiurgos, o Estado deve preocupar-se com a felicidade de toda a cidade e não apenas de uma parte dela. Por isso o filósofo teria a função de orientador e educador nessa cidade, além da função de governante.
E porque a função de governante? Justamente por ele ter sido o único a ter contemplado o belo, o bem e o justo. E, por ter o conhecimento do que é a justiça, governaria melhor a cidade. Também por ser mais indiferente ao poder, não estaria brigando por ele contra rivais e não governaria por interesses próprios. Agiria de acordo com o que é justo. Platão imaginou um estado ideal que é sustentado no conceito de justiça.
Mas por que Platão precisou usar esta alegoria? Ele termina o livro VI (511 a-e) ordenando os modos de conhecimento da seguinte forma: o mais elevado, a inteligência; o segundo, o entendimento; o terceiro, a crença e a opinião; e o último, a imaginação ou a suposição. O terceiro e o quarto baseiam-se no mundo sensível e, portanto, não levam à verdade suprema. Os dois primeiros são do domínio do inteligível, mas o entendimento diferencia-se da inteligência porque não vai até ao princípio mas parte de hipóteses, o que o torna um intermédio entre a doxa e a episteme.
O livro VII começa com o seguinte (514 a): “Em seguida – continuei - imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência”. Esta primeira fala de Sócrates neste capítulo mostra a sua intenção de tratar da educação ao utilizar-se de tal alegoria. Ele estava preocupado em ilustrar como deveria ser a formação dos habitantes da cidade, ou seja, eles deveriam ser orientados a buscar as idéias e os valores mais elevados. A idéia principal da pedagogia de Platão é formar o homem moral dentro do Estado justo. Para orientar os habitantes a tais idéias é necessário o filósofo como educador pois é ele quem tem o conhecimento das idéias unas e imutáveis.

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